Políticas Públicas e Esportes

Gostaria de citar o programa “Segundo Tempo”, já que tratamos de esportes, para ilustrar que este também é manipulado pelo Estado. O Segundo Tempo é um programa que leva atividades esportivas às escolas públicas e comunidades carentes “com o objetivo de educar, proporcionar lazer, incluir...”. O questionamento que fica é: se esse é o objetivo, por que o investimento no programa social é tão baixo e pífio a ponto dos materiais para o desenvolvimento do trabalho dos professores serem tão escassos, a remuneração de quem exerce a função de educador ser digna de um “fome zero” e os ambientes para a execução das aulas serem mais carentes que os próprios alunos?
Políticas públicas (PP’s) envolvendo esportes podem ter alguns nobres objetivos, como proporcionar lazer à população, preservar a saúde, melhorar a qualidade de vida. Porém, em um país como o Brasil, com sua estrutura social, isto é secundário ou até terciário, e se torna um discurso demagógico e ilusório. As PP’s no Brasil devem ser entendidas bem distantes do assistencialismo. Questões políticas e econômicas influenciam fortemente estas ações e servem unicamente para manter o funcionamento do Sistema. Elas estão mais voltadas para disciplinar à força de trabalho e torná-la apta ao mercado do que qualquer outra coisa.
Quando não visualizamos e não ampliamos situações dessa estirpe, aparentemente, as PP’s nos são apresentadas como formas de assistir os mais necessitados e reparar problemas sociais, mas na verdade essas políticas estão a serviço da manutenção do Sistema e, principalmente, servem como atenuadores de tensões sociais, como conflitos e contradições gerados pelo próprio capitalismo.
Também é um erro encarar os últimos dois governos brasileiros como “assistencialistas” levando em conta suas políticas públicas. De certa forma, isso soa como um elogio visto o que já foi mencionado no texto. Sendo assim, todo governo dentro da engrenagem capitalista tem a função de garantir o Sistema de acumulação, manter a ordem, esta última há algum tempo era confirmada através da força policial, mas com advento da perversidade do capital, as políticas públicas se tornaram bem mais “eficazes” e legítimas aos olhos da sociedade civil e do próprio governo, obviamente que em óticas distintas.
Apropriar-se de um fenômeno cultural de dimensões incalculáveis como o esporte, para utilizá-lo como ópio para o povo, é mais uma façanha do Estado burguês. Analisar e se conscientizar sobre tais práticas é o princípio para organizarmos mudanças profundas no que aí está. Dentro desse Sistema, uma criança com uma bola pode ser um artifício burguês para a reprodução da miserabilidade do cotidiano do trabalhador.
Por Pedro Hermes, professor de Educação Física em Maceió/AL
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